Restaurante Tombalobos

Portalegre
9 de Novembro de 2007

Um Outono como este é raro de encontrar. Seco, talvez o mais seco desde há muitos anos; quente, talvez mais quente que em algumas ocasiões do Verão que este ano esteve zangado.
Tornam-se dias agradáveis para passear, procurando a descontração que teima em fugir no dia-a-dia que nos persegue. Meti-me ao caminho, numa manhã solarenga, pela A6 no sentido de Évora e Estremoz. A viagem é pintada em tons da estação, de brilhos dourados reflectidos nos amarelos das folhagens nas árvores, de ocres e vermelhos acastanhados que caem das vinhas espraiadas do Sado ao Alentejo, de verdes tranquilos que persistem num Novembro que já vai a meio. Parece uma tela, placidamente encimada por um azul forte e vivo no céu, salpicado pela alvura de poucas nuvens, que não ameaçam. Só pelo passeio já ganhei o dia. Languidamente saí em Estremoz para o IP2 caminhando para Portalegre, queria aproveitar todo o colo dado pela envolvência para me aninhar um pouco mais e com vagar, acabei por chegar. Os apetites estavam despertos pela descontração que nos invadia, e chegando à cidade, ruma-se para o centro, desviando sempre na direcção de Reguengo/Alegrete, passando por Assentos, sempre colado a Portalegre, para depois sair da cidade e andar perto de 3Km até Pedra Basta. Pelo trajecto podemos parar na Adega Cooperativa de Portalegre e ainda trazer umas garrafas, ou então planear para parar na volta. À placa de Pedra Basta segue-se o desvio para a esquerda (aí já sinalizando o restaurante), e logo nas primeiras casas encontra-se o Tombalobos. Visto de fora a simplicidade é desarmante. A imaginação tem destas coisas e preconcebe-se algo de diferente. A casa foi adaptada para que o rés-do-chão albergue a cozinha, uma sala de refeições e um bar. Desengane-se quem vai à procura de dimensões consentâneas com as do Alentejo, é tudo pequeno e de bom gosto, e o número de lugares limitado. Espaço que em tudo ajuda a que se agigante o chefe José Júlio Vintém, o Tombalobos, numa zona em que as alcunhas identificam melhor as pessoas que os próprios nomes. A sua presença e bonomia é muito simpática e enche com um sorriso pacato a sala, decorada em agradável amarelo e com generosas aplicações luminosas nas paredes, tornando o ambiente confortável e caloroso. As mesas são bem postas, a decoração conta com expositores de garrafas, de variadas e raras origens, e tudo convida a sentar, preparando umas horas de apreciação e relaxe.
Aconselha-se a reserva prévia, e porque não, o desafio de chegar e ser presenteado com as escolhas do chefe em vez da costumeira escolha do menu. Assim poder-se-á aproveitar coisas que cada estação nos dá, que o mercado do dia proporcionou ou que a natureza deixou disponível.
O cumprimento revelou que “estavam preparadas umas coisas boas”. A dúvida que se segue é “o que beber”? Numa lista extensa, com alguma variedade mas onde o Alentejo domina, a escolha é complicada. Nas relações preço-qualidade há de tudo, com bons preços, preços médios e preços elevados, e o recordista é o Quinta do Monte D’Oiro Homenagem a António Carqueijeiro 1999 por 300€. Mas já que era o chefe que nos iria conduzir no que a comer dizia respeito, porque não optar pelo mesmo no beber? Há vários vinhos a copo, maioritariamente da região também, que fazem uma boa companhia aos pratos que se iriam seguir.
As entradinhas da casa contam com o queijo seco da região, a salada do mesmo, o frango do campo e o coelho à vilão, a salada de fígado, a salada de pimentos e os peixinhos da horta. Não demorou para que chegasse a entrada também, um carpaccio de toucinho, divinal por sinal, temperado com alho e limão, uma perdição com o pão alentejano, acompanhado ao copo com um vinho do Porto.
O branco 2005 Adega Cooperativa de Portalegre foi a companhia no prato que se seguia, uma sopa de peixe do rio com as suas ovas fritas. Do vinho, pela sua singeleza, não há muito a dizer. Já pelo prato, a conjugação húmida e suave do peixe com as ervas e o tomate contrastava com a secura das ovas fritas, de sabor delicado, num conjunto que agradou por demais.
Viramos aqui para o lado das carnes, já com receio de não ter estômago para acompanhar os reptos que iam chegando: lebre com feijão branco e gamo com boletos e puré de castanhas, pêra e maçã. Se o primeiro é um clássico da caça que só brilha quando feito com mestria (e aqui não nos desiludimos em nada), no segundo, menos comum, conseguiram-se combinações louváveis, da carne de lombinho de gamo com o estufado de cogumelos boletos e do puré de castanhas temperado com o de pêra e maçã. De lamber os beiços. As sugestões de vinho foram para o Lima Mayer 2005 (um vinho de fácil empatia, quente e guloso) e para o Pedra Basta 2005 (uma novidade, feito pelo ex-jornalista Richard Mayson e com a enologia de Rui Reguinga, um vinho vizinho do restaurante e que me deixou muito bem impressionado). Reparo para as temperaturas de serviços, que em alguns dos casos estavam bem acima do recomendável. No entanto a situação foi corrigida com o recurso ao balde de gelo. Nota muito positiva para os copos.
Se bem que quase nos limites, não deixámos de adoçar a boca com o misto de sobremesas (Torrão Real, Toucinho do céu, bolo de maçã, Fartes, Tarte de Requeijão com doce de groselha), originalmente acompanhado com o Altas Quintas 2004, que se deu bem com umas e menos bem com outras.
O café ainda tenta desatordoar-nos, mas a experiência é enriquecedora demais para nos trazer à terra tão de repente. No final, a agradável surpresa da conta, que se mostra comedida, e a vontade de ficar estendido na esplanada cá fora, a aproveitar a companhia da vista e do silêncio, contemplativos com a Natureza e com as horas anteriores de prazer dadas num sítio tão bonito do Alto Alentejo. Na nossa humildade, só nos resta agradecer e prometer um regresso tão em breve quanto possível. Será a melhor forma de elogiar este TombaLobos.


Localização: Pedra Basta - Portalegre
Telefone: 245 331 214
Móvel:
 965 416 630
Web:
http://www.tombalobos.com/
Mail: tombalobos@gmail.com 

Aceita Multibanco, VISA
Preços aproximados: 20€ por pessoa, sem bebidas.
 


Texto por Pedro Brandão, 2007-11-19