Há certos sonhos que se têm com sítios que vamos conhecendo por ler e ouvir falar. Quem não folheou já uma revista que fala sobre destinos tropicais de areias finas e claras, águas translúcidas, brisas quentes, sombras de palmeiras, e não fechou os olhos uma noite ou outra, povoando os seus sonhos com estas imagens? Muitos deles vão sendo alimentados à medida que o tempo passa e mais vamos lendo, vendo ou sabendo por outros. E eles crescem, de modo a que, quando surge a oportunidade de tornar o sonho realidade, parece que tudo o que se sente é mais intenso.
Um dos meus sonhos até há pouco tempo, era o de conhecer o Restaurante A Galeria Gemelli. Muito li sobre ele, sempre e invariavalmente coisas boas, muito boas. Li na Revista de Vinhos de Fevereiro de 2003 que tinha sido escolhido como Restaurante do Ano, li sobre mais de uma visita feita por David Ramos Lopes no Público On line, fui lendo vários comentários a eventos e ocasiões que lá tiveram lugar. E este foi o verdadeiro alimentar do sonho, alimentado a pratos, combinações e ingredientes que nos deixavam a pensar que o concretizar desse sonho deveria ser o mais saboroso e prazenteiro.
À poucos dias, deixei de ter esse sonho. Uma ocasião muito especial pedia uma comemoração à altura, algo que se dissesse inesquecível, uma loucura daquelas que só se podem fazer muito de vez em quando, uma noite a dois que marcasse a diferença. E foi por isso que o sonho passou a realidade. Antes de mais delongas, posso dizer que realmente todas as expectativas, tanto na comemoração da ocasião, como do concretizar do sonho, foram superadas.
A superar também inicialmente, tínhamos alguma inibição. O sítio já de si envolto numa áurea muito especial, inibe um pouco quando nos deparamos com a porta fechada e a indicação "Toque a campainha apenas uma vez". Uma vez lá dentro se entende perfeitamente o porquê. O espaço é pequeno, muito intimista, de iluminação ténue muito agradável, som ambiente em tom suave, a espaços romântico. A porta fechada serve de protecção a que não se perca tudo isso. As mesas estão dispostas de modo a que, no entanto, não falte espaço aos comensais, bem como estão postas de modo simples e eficaz, como uma pequena luz em forma de vela, mais um ingrediente que ajuda na criação de toda a atmosfera, com alguns recantos mais escondidos.
Depois de cordialmente recebidos, somos levados para a mesa, ao fundo da sala, perto de um balcão de bar, com a máquina do café, vários exemplares de vinhos, azeites e vinagres, que esconde recatadamente a preparação dos aperitivos, enquanto nos trazem a ementa. Salientam-se também na sala, duas arcas de conservação de vinhos, que os deixam dormir e crescer a temperaturas do seu gosto, e que possibilitam a qualquer altura do ano, o serviço a temperaturas irrepreensíveis que qualquer um. A atenção para com a componente enófila (amiga do vinho, do Gregooînos , vinho + phílos , amigo) neste espaço é enorme, e temos o acompanhamento ao longo da refeição de um escanção, que se encarrega da recomendação e serviço dos vinhos. Só este facto, que é tanto importante como raro hoje em dia, é digno de ressalva.
Mesmo com a ementa na mão, e antes de a abrir, mesmo parecendo um contrasenso, estamos num sítio em que apetece não escolher nada. Apetece dizer "Estou nas vossas mãos". Para quem concorde comigo, existem opções para menus degustação:
Menu composto por: 2 entradas, 2 massas (ou 1 massa e um risotto), 1 sobremesa (35€)
Menu composto por: 2 entradas, 1 massa, 1 prato de peixe ou carne, 1 sobremesa ( 45€)
Menu Grande Degustação: 2 entradas, 1 massa, 1 prato de peixe, 1 prato de carne, 1 sobremesa (55€)
Aqui, podemos recostar e esperar ser surpreendidos. Todos os pratos são surpresa, não sabemos o que vamos comer. Apenas temos a certeza de que não nos trazem nenhum ingrediente que tenhamos indicado ao início que não gostamos. É um desafio, para quem come, e para quem está na cozinha.
Mesmo que se opte por um menu, recomendo que se delonguem na ementa. Esta mostra um estilo de fusão entre a influência italiana, origem do Chef Augusto Gemelli, com a tradição e ingredientes Portugueses, e levando uma grande componente de inovação, que nos deixa a ler lentamente e com gosto todas as hipóteses de escolha, impossíveis de aqui enumerar.
Novo desafio se põe quando se pensa no que beber. Os menus não incluem as bebidas, e nada como optar pela lista de vinhos a copo, para que cada fase da refeição, possa ter a melhor combinação possível com um vinho. Reserve algum tempo antes de vir o Amuse Bouche (o primeiro entretém de boca), pois a carta de vinhos é muito extensa. Espumantes, verdes, rosados, brancos, tintos, moscateis, madeiras, portos, colheitas tardias, de várias proveniências e origens, para todos os gostos e feitos. Nem todos se podem beber a copo, mas esses são bastantes também. Podem oscilar entre os 3 e 7€ por copo na sua maioria. Se quisermos a garrafa, a partir dos 15€ temos muito bons vinhos, sendo que os topos se chegam ou mesmo ultrapassam os 100€. Nota positiva aqui para a justeza nos preços, que não são inflaccionados como é regra geral na restauração.
Do mesmo modo que na escolha do que comer, também aqui apetece dizer "Estou nas vossas mãos". Afinal, não é sempre que se pode contar com a presença de um profissional para nos dar recomendações. E temos de ter a consciência que muitos de nós são curiosos e apreciadores, e estas oportunidades servem para aprender. E foi isso que foi feito, apenas se indicou que queríamos vinho a copo, um para as entradas/massa, outro para a massa/peixe, um para a carne e um para a sobremesa. Estávamos por completo nas suas mãos, e deixámo-nos embalar em quase 4 horas de puro deleite:
Amouse Bouche: Souffle de cenoura em cama de espinafres e azeite
Entradas: Struddel de legumes exóticos com emulsão de tomate seco e embrulhinho de espargos verdes com camarão e gelatina de tomate
Pasta: Fetuccini com molho de cantarilho assado com ervas frescas
Peixe: Filete de peixe galo gratinado com ervas aromáticas em cremoso de espinafres
Carne: Lombo de porco preto gratinado com ervas aromáticas em assado de courgettes com vinagre agridoce e pérolas de batata
Sobremesas: Creme de iogurte, crocante de amêndoa com espesso de capuccino e Trilogia de chocolate branco, negro e de avelâs com ragu de mirtilos
A recomendação dos vinhos, servidos em copos Spiegelau, foi, para as entradas, Marques de Riscal Sauvignon Blanc 2004, para a massa e peixe Vértice branco 2003 (um vinho que nos foi dado a conhecer ainda antes de sair para o mercado), para a carne Rosemount Diamond Label Shiraz 2003, e para as sobremesas uma colheita tardia italiana, Maximo
Botrytis cinerea
2000 Marche-Itália e uma portuguesa, Outono de Santar 2001 Dão.
Que dizer? Do serviço atento e simpático, foram-nos sendo apresentadas as criações, que vinham primorosas de confecção, sabor e apresentação. Não me considero gastrónomo nem gourmet, sou um mero apreciador de boa comida, e fiquei surpreendido principalmente por uma coisa: o equilíbirio. Não havia nada desbalanceado, todos os ingredientes e temperos estavam num equilíbrio perfeito. Permitia saborear com vagar e sentir as várias partes do conjunto separadas, mas transmitindo ao mesmo tempo a noção de que juntas, a sua conjugação era perfeita. Também gostei bastante de sentir que a comida além do sabor, tinha aromas, e enquanto fazíamos a nossa degustação, conseguíamos cheirar, no nariz e na boca, o que estavamos a apreciar.
As sobremesas também revelaram combinações de grande nível, juntamente com matérias primas de muita qualidade.
Apenas duas coisas me agradaram um pouco menos: o filete de peixe galo que vinha um pouco seco demais para o meu gosto pessoal, e as pérolas de batata, que por mim podiam ser dispensadas, ou substituídas por um puré ou esmagado das mesmas.
As recomendações dos vinhos combinaram também de modo excelente com os pratos. Uma boa surpresa no Vértice e no Maximo, os que mais gostei, a confirmação de que tanto o Marques de Riscal como o Rosemount são vinhos de que se gosta muito facilmente e são excelentes apostas na relação qualidade/preço, e um Outono de Santar que já conhecia, que aprecio, mas a que acho que falta acidez e frescura, estando pesadão.
É fácil concluir que é um sítio pouco acessível. No entanto, e para quem, como eu, prefere (a)guardar para a melhor ocasião, é uma experiência única. Se são fãs de alimentar sonhos, sempre na esperança de que um dia sejam realidade, não deixem de alimentar este.
Localização: Rua de S. Bento, 334 (ao lado da Assembleia da República)
Telefone: 21 395 2552
e-mail: restgaleria@oninet.pt
Aceita Multibanco e VISA
Preço médio por pessoa: variável consoante o tipo de escolha. Da ementa, maioria dos pratos entre 15-25€, preços indicados de menu são por pessoa.
Texto por Pedro Brandão, 2005-08-11