
Se chegou
até estas linhas, algo lhe fez despertar a atenção. Tenho de um lado o meu ego a
dizer que é simplesmente pela qualidade literária dos meus escritos.
Mas do outro pauta a razão, que diz que o nome Quinta de Catralvos traz muito
mais impacto que a minha mania de escrever. Hoje vou ser indulgente com ambos,
afinal, o ego também tem de ser alimentado...
Continuar a ler significa anuir na protecção do segredo que as palavras irão
revelar. Um segredo bem guardado, às portas de Lisboa, no colo da serra da
Arrábida. Por isso, se está à altura da responsabilidade, continue... mas eu
avisei.
Quem trata do nosso alimento no restaurante da
Quinta de Catralvos é o chef Luís Baena. Dono
de um invejável currículo, assume neste espaço uma postura muito original,
diferente de tudo, e para mim, excelente na abordagem que faz, na qualidade que
apresenta e no efeito que causa a quem visita o restaurante.
Integrado no complexo enoturístico da Quinta, tem uma sala ampla, com muita área
envidraçada, um convite a espreitar as vinhas e a serra. Uma área
mais pequena, central e elevada, comporta 3 mesas em redor de uma
lareira/recuperador posicionado como ilha, igualmente a fazer uso da
transparência do vidro para permitir assistir ao crepitar do lume, dentro da
sala e fora para quem passa. Um balcão de bar dá suporte ao serviço de bebidas e
pode também dar serventia a quem quer apenas beber qualquer coisa, ou enquanto
espera a mesa, ou somente para relaxar. A iluminação ténue, acolhedora e
tranquila, leva-nos a falar baixinho. A decoração moderna, simples, de gosto
afinado e práctico, recolhe-nos com muito conforto.
Simpatia é também adjectivo merecido para quem nos recebe. Atenciosos e
prestáveis, o pessoal de sala mostrou-se bem à altura, sem mácula. A explicação
precede a escolha, e podemos montar nós a refeição, ou deixar-nos embalar num
menu degustação surpresa, feito com base nas opções da lista.
Passear pela ementa é um prazer por si só. Temperada q.b. com humor, marca uma
rotura com o convencional. O ótedógue de salsicha de camarão ou o McSilva não
deixam de provocar o sorriso, sendo que o primeiro vem condignamente servido
numa pequena tijela inox do tipo ração, sobre um "osso" de pão, com ketchup
caseiro e mostarda de mosto. A ementa em detalhe pode ser consultada no site,
apesar de não estar completa e actualizada, com indicação de preços. Para quem
pretender criar a sua refeição com escolhas da lista, é aconselhado a escolher 2
ou 3 opções por entrada, carne e peixe. As doses são pequenas, a intenção é
provar em variedade, e o formato vem adaptado para as refeições a dois, para a
partilha. Deixei-me levar pelo menu surpresa...
As escolhas no que a vinhos diz respeito são comandadas pelos vinhos da casa.
Várias possibilidades dado o leque alargado de escolha, rosés, brancos e tintos
servidos a garrafa e a copo (lista dos vinhos também no site, mas de novo por
actualizar), com preços que não chocam nínguem. Algumas possibilidades
adicionais em vinhos da zona, maioritariamente da José Maria da Fonseca e da
Bacalhôa. E a hipótese de ir acompanhando o menu surpresa com os vinhos
sugeridos pelo chef também. Foi por aí que fui...
Excelentes os copos, Schott Zwiesel, adaptados a cada vinho. As temperaturas
correctas também, apenas o tinto merecia estar um pouco mais fresco. O método de
conservação das garrafas abertas é a indução de vácuo, e ao servir o vinho a
copo à mesa, a garrafa é sempre trazida e apresentada ao servir. Impecável.
Começando a refeição com a entrada do chef, uma espetadinha de garoupa com
tomate cereja, abrimos com o rosé Lisa 2005, cheio de sugestões de iogurte de
morango, para acompanhar:
-Azevias de
bacalhau
-Ótedógue de salsicha de camarão,
ketchup caseiro e mostarda de mosto
-Ovos de codorniz estrelados com cogumelo grelhado e Presunto de Barrancos DOP
O Monte da Charca branco 2005, guloso, muito floral, a par de:
-Almôndegas
de tamboril com molho americano
-Lombo de salmonete assado com crosta de salsa, panqueca de aneto
-"Bola de Berlim" com creme de santola, panada com mexilhão e carabineiros,
folhagem e aromáticos
Para limpar o palato, entre o mar e a terra:
-Shot de
navalheiras e ouriços-do-mar
-Capuccino de milho com espargos verdes
A carne ombreou com o Catralvos 2003 tinto:
-Molejas de
borrego com "palha" de massa de Pastés de Tentúgal
-Risotto de cogumelos com foie gras Ananás dos Açores DOP
-Medalhão de Lombo com chantilly de alho, folhado de batata
Se pensam que já não cabia mais nada, desenganem-se... O abafado da casa fez parceria com O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo, mousse de 3 chocolates, mousse de framboesa e seu bolo!
Uma refeição e um local que não serão esquecidos facilmente. As marcas são profundas, e o sentimento que vem à tona é o de manter o segredo, o tal que avisei ao princípio. Não conseguimos deixar de nos sentir egoístas e de pensar em proteger o que nos foi revelado, no intuito de preservar, de que não estraguem. Agora que possuem o conhecimento, estão ligados ao voto de protecção. É vosso dever ir conhecer, e passar o legado a todos os que o merecerem, e se juntarem a nós, com o mesmo compromisso.
Localização:
Quinta de Catralvos E.N. 379 - 2925-708 Azeitão
Telefone: 212 197 610
Fax: 212
197 619
Aceita Multibanco, VISA e
cheque
Preços aproximados: 40€ por pessoa, com bebidas. Depende muito do
que se escolher para compor a refeição
Web:
www.quintadecatralvos.com
Texto por Pedro Brandão, 2007-03-05