Prova de vinhos da Herdade dos Grous
Restaurante Tasca do Joel

Peniche
16 de Novembro de 2007

O que nos faz depois de um dia e de uma semana de trabalho que nos deixa na pior das disposições, pegar no carro para conduzir hora e meia (hora de estrada, meia de confusão)? Para mim, a excelente companhia, a conversa animada, o bom comer, tudo à volta do vinho, são motivos bem suficientes!
Num cantinho que cada vez mais preservo, num sítio que para muitos seria inusitado, há horas assim, que sabem bem e passam devagar. Naquele que foi o 1º Grande Jantar Vínico da Tasca do Joel (Peniche), os convidados foram a Herdade dos Grous, um produtor alentejano regido pela batuta do enólogo Luís Duarte (ex-Esporão, actual Grous+Malhadinha+etc), e muitos amigos, onde agradeço o acolhimento de me terem recebido como um.
À prova as mais recentes produções dos Grous, emparelhadas numa ementa tão difícil de resistir como de acompanhar. Só os mais fortes resistiram sem fraquejar, num alinhamento que abriu com carapaus de escabeche e ovas de bacalhau, que deixaram solta toda a exuberância de um branco novo, o Herdade dos Grous 2007. Pela sua tão recente criação, é um vinho que ainda não se poderá avaliar por completo. É uma experiência sempre interessante o contacto com um vinho assim, que é inebriante nos aromas frutados, cheio de goma de banana, ananás verde e casca de meloa. As notas verdes presentes de relva e um ligeiro anisado até relembram um Sauvignon Blanc, mas não, tem Arinto, Roupeiro e Antão Vaz (em menor proporção, e com 13%). A boca é mais simples, verde cortante, de acidez viva e com um final anisado. Infelizmente, dado a chegada tardia dos vinhos, não foi possível ter a temperatura ideal de serviço a tempo do começo do jantar (algo a rever em próximas ocasiões). Mesmo assim, encaixo o vinho entre os 14,5 e os 15,5 valores, com obrigação de ser revisitado na próxima Primavera.
Seguindo nos peixes, serviu-se um Bacalhau à Lagareiro, o verdadeiro Sr. Bacalhau (de nome, marca e qualidade). Uma posta excelente, de cozedura, tempo de forno e sal, acompanhada por um excelso azeite, onde só a presença do alho perturbou a conversa com o Herdade dos Grous Branco Reserva 2006. Este vestiu o copo de amarelos bem mais fortes que o primeiro, de nariz profundo que não esconde a fermentação e estágio de 6 meses em barricas de carvalho, sur lies e com battonage. É no entanto um aroma bastante equilibrado (que precisa de abrir, ou mesmo decantar, para se mostrar), tostado e de frutos secos, de fruto sóbrio e sério. Impressiona no toque com o palato, atacando amplo e largo, com frescura e sem a madeira tão evidente como no nariz. Acidez colocada no sítio certo, mordente e vivo, é um parceiro à altura para o que se comeu, e não descura o armazenamento e o tempo de evolução nos próximos 3 ou 4 anos para se mostrar no topo da forma. Na minha escala, coloco-o entre os 16,5 e os 17 valores.
Auspicioso o começo, que nos deixa curiosos sobre a continuidade do evento. Um interlúdio proporcionado pelo enólogo gerou dois dedos de conversa sobre os brancos, deixou que as pessoas convivessem na mesa, conversassem um pouco e criassem espírito e perseverança para as etapas seguintes.
O primeiro tinto foi o Herdade dos Grous 2006, o vinho menos complicado, feito com Touriga Nacional, Alicante Bouschet, Syrah e Aragonês. Estágio em barricas divididas entre novas, de 1, 2, 3 e 4 anos, 14% que mostram as unhas, tanto no nariz como na boca, e que exigem que a temperatura de serviço seja rigorosa e no máximo de 16º. É um vinho de empatia imediata, cheio de fruto guloso, muita amora e cereja, escuro, açúcar queimado e compota de morango, aromas lácteos com o tempo de copo (deixem-no respirar que precisa). Sabores igualmente gulosos, perigosos pelo álcool que está presente mas em nuance adocicada, é vivo fruto de uma acidez mediana, mas procura ainda alguma harmonia entre os componentes. Fica para mim entre os 15 e os 16 valores. Foi parceiro de uns Hamburgers de carne Maronesa, deliciosos, e o mano-a-mano foi bem conseguido.
A estreia da noite foi o Herdade dos Grous Moon Harvest 2006. Um varietal de Alicante Bouschet de que vale a pena falar um pouco, pela inovação que traz a sua concepção. O estudo entendido da influência da lua e das suas fases nas marés, no desenvolvimento e crescimento vegetativo, no comportamento da Natureza, quando cruzado com a localização geográfica, pode apontar qual a melhor altura para se realizar determinada acção. Por exemplo, pode dizer qual a melhor altura do dia para se tomar uma determinada medicação, porque o nosso corpo está mais predisposto e receptivo a assimilá-la com maior eficácia, fruto do funcionamento do nosso fluxo sanguíneo pelo corpo. O mesmo se aplica à videira. Todas estas influências cruzadas, podem apontar qual a melhor hora para a vindima, sabendo como o comportamento do fluxo de seiva na planta pode influenciar a predisposição da uva. A experiência foi feita num talhão de Alicante Bouschet em Setembro (a casta que nessa altura ainda não tinha sido vindimada), e no dia 14 foram feitas duas vindimas: uma às 3h da manhã (o ponto máximo ideal da influência da lua) e uma às 11h (o ponto mínimo). Foram vindimadas filas intercaladas numa e noutra passagem, e foram feitos 2 vinhos exactamente da mesma forma. Os produtos finais foram sujeitos a várias provas (sem identificar quais os vinhos ou quais as intenções) e o vinho resultante da vindima às 3h saíu sempre vencedor nos vários painéis.
É esse vinho, que após estágio de 12 meses em carvalho francês resulta em 14,5% de graduação e tem um nariz completo e equilibrado, muito fresco e apresentando notas químicas e de cera, que se conjugam com uma fruta suave e elegante. Muito estruturado na boca, belíssima fruta, e elegância q.b. Nota-se também aqui a presença algo eriçada do álcool, mas há muito vinho para deixar descansar, procurando o melhor ponto. Coloco-o na minha escala entre os 16 e os 16,5 valores.
Ainda nos veio fazer companhia o Herdade dos Grous Reserva 2005 (Magnum), um vinho mais sério e fechado, preto impenetrável no copo, um lote de Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah que passou 12 meses em carvalho françês novo. Muito fino no aroma, demora até que apareça o côco, os tostados, os químicos e a framboesa e deixa-se algo carrancudo. A boca é enorme, ataca agressiva e cheia de garra, é um vinho irreverente e obrigatório para guardar dado o enorme potencial. Dou-lhe 17 valores, mas a precisar de revisão daqui a alguns anos.
Os resistentes acompanharam estes dois tintos com uns Secretos de Porco Preto e batata assada, mas já se viam desistências no que tocava a acabar o prato dado as quantidades servidas ultrapassarem os limites de muito bom estômago.
Não se podia acabar a refeição sem adoçar a boca aos presentes, com umas trouxas de ovos. Por altura do café vieram os típicos Pastéis da Tasca (para mim uma das melhores sobremesas para acompanhar um vinho doce de variadas origens) e os Pastéis de Peniche. Degustou-se um ATS Cuveé 2005, um vinho de colheita tardia de alguma simplicidade, mas bom parceiro para acabar um périplo destes (14 valores).
Para que a digestão não começasse com violência, ainda fomos embalados pelo fado tocado e cantado na sala por alguns dos presentes, fechando em grande uma noite a recordar, com uma bela prestação da cozinha da Tasca do Joel. Acabo como comecei: a excelente companhia, a conversa animada, o bom comer, tudo à volta do vinho, são motivos bem suficientes para nos fazermos à estrada. Não deixem de o fazer também.


 


Texto por Pedro Brandão, 2007-11-19